António Simões

Vou contar uma história mais séria para mostrar como o futebol é rico em momentos especiais, até mesmo quando se tratam de momentos que têm dor. Nas meias-finais do Campeonato do Mundo de 1966 defrontei um lateral direito chamado George Cohen. A determinada altura, a SportTV tem conhecimento que este jogador tem cancro e está a fazer tratamento. Vendeu tudo o que tinha, desde a medalha de campeão do Mundo até todas as suas camisolas, etc… Este senhor, ex-jogador da selecção de Inglaterra, vendeu tudo e mesmo assim não chegou. Penso que durante 14 anos ele lutou contra o cancro e isso chegou ao meu conhecimento. Fui convidado para um jantar na casa do Benfica em Londres, para angariar fundos para ele poder continuar a fazer o tratamento. Aceitei o convite e fui. E peguei na camisola dele, que tínhamos trocado no final do Portugal-Inglaterra, dobrada num saquinho, e levei-lha. Quando me encontrei com ele, e há os discursos durante o jantar, e felizmente domino a língua inglesa porque vivi muitos anos nos Estados Unidos, surpreendi-o, a ele e à esposa, com a entrega da camisola que ele tinha trocado comigo há mais de 30 anos. Como se pode imaginar, ele ficou completamente radiante com a situação, mas o que mais me impressionou foi a esposa, que chorou, chorou e chorou que foi uma coisa tremenda! Acho que há coisas na vida que valem a pena fazer. Eu achei que devia fazer isto. Afinal de contas, tinha a camisola de um homem que tinha pertencido a uma selecção campeã do Mundo. Aquela camisola tinha um valor fantástico mas teve muito mais valor para o que foi. Não a quis mais a partir do momento em que percebi que podia contribuir para que aquele senhor sobrevivesse a um cancro. Não podia ter outra atitude. Conto eu isto com o intuito de ter mais medalhas? Não, isso eu tenho muitas. O que quero transmitir às pessoas é que há muita coisa além do jogo e há muito mais coisas além do dinheiro, embora compreenda que seja importante, mas ter a oportunidade e o privilégio de poder ter contribuído para esta situação acho que isso é que é o bom do jogo e isso é que devemos aprender na vida. E estou a contar isto pela segunda vez na minha vida, e aconteceu há uns 15 anos, não é com o intuito de ser reconhecido seja em que aspecto for. Mas é uma história fantástica que o futebol me proporcionou e que foi muito reconfortante para o meu coração.
Vou também contar uma história cheia de humor, cujo final tem um peso moral e humanístico fantástico. Nos anos 60 tive um colega chamado Fernando Cruz, que felizmente ainda é vivo, bicampeão europeu. Só existem quatro bicampeões europeus vivos do Benfica: Mário João, José Augusto, Ângelo e Fernando Cruz. Ficávamos no chamado lar do Benfica e sabíamos o que se estava a passar. Ele estava na tropa, fardava-se na véspera, ia-se embora e no outro dia aparecia fardado no treino como se viesse do quartel. Um dia, na brincadeira, o nosso falecido Santana disse-lhe:
– Ó Cruz, estás tramado que a Dona Otília já sabe.
Ele interiorizou aquilo, pensava que a governanta do lar o tinha apanhado. Chegou ao Estádio da Luz, o treinador, que era o senhor Béla Guttmann, um homem muito rigoroso e exigente, viu-o a chegar e perguntou-lhe o que é que se passava.
– É que eu não fiquei no lar.
– O senhor não ficou no lar? Senhor Caiado, fala com Cruz, que é malandro e diz que não ficou no lar.
E o senhor Fernando Caiado, que era o adjunto, pergunta-lhe porquê.
– Tive de deixar o meu pai no hospital. Estive lá desde as 7 da noite até às 4 da manhã. Estava a ver que não dava entrada, era uma chatice!
– Explica lá isso melhor.
– É que o meu pai precisava de ser drenado e tal.
– E em que hospital é que está o teu pai?
– Está no São José.
– Então espera aí que o Dr. Sousa Pinho – que era o nosso médico – liga para lá para saber como está.
Não estava lá pai nenhum, claro.
– Está aí o senhor José da Cruz?
– Não, não. Não deu entrada nenhuma.
O professor Caiado foi ter com o Cruz, já estávamos quase a começar o treino.
– Olha lá, estás-me a mentir? O teu pai não está no hospital! O Dr. Sousa Pinho ligou e não está lá.
– Ó senhor Caiado, não me venha dizer que o meu pai já foi transferido?!
– Mas tu estás a brincar comigo?
– Não estou nada! Agora fiquei preocupado. O melhor é nem treinar, vou-me já embora!
Lá fez o treino e foi ter com o pai. O pai estava reformado, estava a jogar às cartas com os amigos, e o Cruz nunca ia ter com ele à hora de almoço.
Assim que viu o filho disse-lhe:
– Oh, estás aqui a esta hora? Alguma coisa aconteceu…
– Ó pai, tem de ir para o hospital.
– Para o hospital? Estás maluco? Seu malandro!
– Ó pai, tem de ser senão eles matam-me! Vou levar uma multa, tenho ali um problema.
Começou a ralhar com o filho e a verdade é que foi mesmo para o hospital.
No outro dia, o Cruz chegou ao treino e o senhor Caiado foi logo perguntar-lhe pelo pai.
– Ó senhor Caiado, eu não lhe disse que o meu pai tinha sido transferido? Ele agora está no Santa Maria.
Ainda desconfiado, foi falar com o médico do Benfica.
– Ó doutor Sousa Pinho, diga-me lá uma coisa: o Cruz diz que o pai foi transferido. Mas isso é possível?
– Sim, às vezes acontece.
O Cruz estava a ouvir aquilo e diz-nos:
– Este já está a ir por mim, 1 a 0!
E o Caiado perguntou ao Cruz:
– Mas o que é que tem o teu pai?
– Tem um problema na perna.
– Ok. Vai lá treinar.
Aconteceram aqui duas coisas: a primeira foi que o Benfica resolveu louvar o senhor Fernando da Conceição Cruz pela atitude que teve com o pai. Aquilo aparecia tudo na parede, conforme vinha o elogio também vinha a multa. Tudo o que acontecia era escarrapachado na parede do balneário para todos tomarem conhecimento. Então veio uma carta lindíssima assinada pela Direcção a elogiar o Cruz. E diz ele assim:
– Foi preciso pôr o meu pai no hospital para me darem um elogio. Eu sou campeão europeu, isto é uma vergonha, pá!
Ele era muito engraçado.
A outra parte da moral da história: efectivamente o pai precisava de ser internado. Tinha um problema numa perna e esteve lá seis meses. Ou seja, o pai foi posto no hospital para salvar o filho, mas o filho salvou o pai.
É uma história fantástica, que tem a ver com personalidade, com gente humilde, muito perspicaz, viva, esperta, do desenrascanço, daquilo que é muito da nossa cultura, com uma pequenina mentira à mistura que não fez mal a ninguém, mas que tem imensa graça e revela uma imaginação extraordinária para sobreviver a uma situação na qual ele se meteu. E desenrascou-se muito bem, teve esta atitude e acabou por dar vida ao pai.
Sempre que nos encontramos com o Fernando Cruz queremos ficar na mesma mesa dele porque sabemos que nos vamos divertir. Para mim foi a maior referência que tive em toda a vida de como se pode ser bom numa coisa, ser tão divertido e gostar tanto da vida.
Na final da Taça dos Campeões Europeus de 1968, contra o Manchester United, o adversário dele seria o George Best. E nós:
– Ó Cruz, amanhã com o George Best…
– És maluco. Quero lá saber do George Best! Deixa-o vir.
Nascido no Bairro da Liberdade, para este alfacinha uma final da Taça dos Campeões era igual a jogar um jogo qualquer no Estádio da Luz. Vejam a naturalidade com que ele encarava a responsabilidade de poder ser campeão europeu. Fantástico!


O mais jovem campeão europeu de sempre, jogou 14 épocas no Benfica antes de se aventurar no futebol norte-americano, onde iniciou a carreira de treinador.

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