António Raminhos

Pode existir uma linha muito ténue entre a ingenuidade e a imbecilidade. E o melhor de tudo é quando as duas se encontram. Foi o que aconteceu naquela fatídica tarde de 1998. Com 18 anos, estava a estagiar no jornal A Capital, na secção de desporto, e tinha a primeira saída com um colega. O destino era o Estádio da Luz em ebulição. Contestação dos sócios, Vale e Azevedo a amealhar os primeiros trocos e uma equipa em blackout. Uma atitude incompreensível no futebol, só comparável a um menino mimado a quem a mãe não compra o gelado.

Culpados disto tudo? Os jornalistas. Não era o facto de ter craques como Tahar, Pringle (a uma letra de ser uma batata) ou Michael Thomas, um ídolo não por ser bom de bola, mas por fazer os adeptos acreditarem que um dia também podiam estar no Benfica.

No meio daquela confusão, o meu colega vê Hugo Leal a sair de carro, ser rodeado de sócios e pediu-me para ir escutar, discretamente, o que estavam a conversar. Ouvi o que tinha a dizer e saí dali incólume. Uns metros à frente saquei do bloco para apontar aquela meia dúzia de vocábulos. E foi assim que a ingenuidade e a imbecilidade se juntaram e fizeram o doce amor. Logo nesses segundos ouvi passos apressados atrás de mim, misturados com gritos de “ele é jornalista!”, “o gajo estava a escrever”, se bem que a parte de “o gajo estava a escrever” podia ser só de surpresa.

Sem olhar para trás, acelerei o passo até que senti alguém puxar-me a mala. Por instinto, virei-me e levantei o braço pronto para arremessá-lo. Quando olhei, do alto dos meus 1m92, era um velhote encolhido, qual cão vadio, que tremelicava dos olhos. Qualquer sopapo no senhor não seria agressão, era logo extrema-unção.

Foi então que o meu colega me puxou e levou-me para dentro da sala de imprensa onde estavam todos os outros jornalistas. Não era muito diferente daquela imagem que temos de pessoas fechadas num abrigo enquanto lá fora caiem bombas. A conversarem. Uns mais apreensivos do que outros. Mas para a maior parte deles era normal. Acontecia na Luz, Alvalade, Antas… Eu tive apenas o azar de ser na minha estreia e logo no meu clube.

Enquanto estava lá dentro, os gritos de raiva iam aumentando e as ameaças também: “vais morrer, não sais daqui.” Até que um desses adeptos entra pela sala adentro a gritar palavras de ordem. Desesperado virei-me para o senhor e entreguei o bloco. “Tome lá isto, pronto! Está aqui”. Na sua cara desenhou-se um sorriso rasgado de missão cumprida. Provavelmente o ponto alto na vida daquela alma nos últimos anos. Seguiu rapidamente para a rua de onde ouvi as seguintes palavras: “está aqui. [silêncio] Olhem para isto, nem percebo o que o gajo escreveu!”

Rimo-nos. Não havia muito mais a fazer. A minha ingenuidade tinha feito o doce amor com a imbecilidade daquele senhor.


Conquistou o público em 5 para a Meia-Noite, saltando em 2014 para o cinema, com Eclipse em Portugal, Ruas Rivais e Mau Mau Maria. Mas ainda arranja tempo para actuar onde o quiserem ouvir.

Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Deixe um comentário