António Magalhães

Acordo estremunhado num quarto de hotel em Donetz. Julgo ter dormido várias horas, tamanho era o cansaço de uma viagem que tinha começado na véspera depois de um Sporting-FC Porto em Alvalade. Tomo um duche e desço para o restaurante. Servem-me um bife. Estou cada vez mais confuso. Olho para o exterior, parece-me estar escuro. Já é hora de jantar? Decididamente, perdi a noção do tempo. Alimento-me – estou esfomeado – e tento perceber a quantas ando.
Faço um flashback. Pode ser que me ajude.
Começo pelo princípio.
Estou na tribuna de imprensa de Alvalade em serviço pelo Offside. Tenho 20 anos, fui lançado cedo às feras. Estamos em março de 1984 e está um dia de sol. Joga-se o Sporting-FC Porto, Gomes faz um golo madrugador e a festa final é dos azuis-e-brancos – naquela altura não havia dragões.
Desço às cabinas, pois tinha combinado com um tio, Alexandre Magalhães, – então vice-presidente do FC Porto – que me levaria para o Porto. Destino: Donetz, onde se jogaria a 2.ª mão dos quartos-de-final da Taça das Taças. O FC Porto tinha ganho por 3-2 ao Shakhtyor (era assim que se chamava o atual Shakhtar) nas Antas. Eu era o enviado-especial do Offside e fazia o meu baptismo internacional.
Sento-me no banco de trás do automóvel. À frente vai o meu tio e Pinto da Costa. A paragem na Mealhada é inevitável. Quando entram no restaurante, há uma explosão de alegria. Centenas de portistas deliciam-se com o leitão e festejam com os dirigentes.
O FC Porto parte à 1h30 da manhã para a União Soviética (a Ucrânia ainda não era um país independente) mas antes há que fazer uma paragem obrigatória. A concentração é nas Antas e todos (equipa técnica, jogadores, dirigentes) deslocam-se para uma moradia. É a casa de José Maria Pedroto. O treinador tinha sido operado, ainda se debatia com a doença que menos de um ano depois acabaria por motivar a sua morte. Pinto da Costa, António Morais e Fernando Gomes vão à cabeça do grupo. Assisto, cá fora, ao cortejo. A devoção e o respeito são enormes.
Próxima etapa: Pedras Rubras. Às 3 da manhã, iniciamos o voo num avião da Aeroflot. Paragens em Budapeste e Kiev, seis horas depois. Aqui, já território soviético, cumprem-se duas horas de rigorosa inspecção. Depois, Donetz. A queda na cama e o sono de… apenas alguns minutos.
Agora sim, já sei a quantas ando. Daqui a pouco tenho de ir para o treino do FC Porto.
No dia seguinte, o jogo. O FC Porto empata com um golo de Walsh e passa às meias-finais da Taça das Taças. Histórico. O regresso volta a ser longo. No Porto, há milhares de pessoas à espera dos heróis. O caminho é o mesmo. Desta vez, só Pinto da Costa, o fiel António Morais e o capitão Gomes vão a casa de Pedroto. O líder era ele.


É director do jornal Record, cargo que assumiu em 2014, a etapa mais recente de uma já longa carreira no jornalismo, com passagens pelo Offside, Gazeta dos Desportos, Correio da Manhã e A Bola.

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Um comentário sobre “António Magalhães

  1. Nessa altura já havia Dragões… inclusive a claque do F C Porto era “Dragões Azuis”… e esteve nesse jogo – que o F C Porto pediu para ser antecipado, devido à deslocação para o jogo com a equipa então da Rússia, mas Sporting não permitiu, na tentativa de poder ganhar com a hipotética poupança de esforços dos azuis e brancas, só que o tiro saiu pela culatra !

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