Antchouet

Tenho muitas histórias, mas há uma da qual o Abílio, que jogou comigo no Leixões, gosta muito. E é engraçada porque tem a ver com a diferença de culturas quando cheguei a Portugal. Em África não temos aquelas brincadeiras típicas dos portugueses. Um dia, até foi no aniversário de um jogador, puseram uma panela cheia de água em cima da porta. Eu estava atrasado, vinha a correr em grande velocidade e quando empurrei a porta levei com um grande banho em cima. E comecei a ouvir os gajos a rir lá no departamento médico. Fiquei tão enervado que peguei em duas garrafas de champanhe que estavam ali da festa, entrei no departamento médico e gritei “quem foi o filho da puta que fez aquilo?”. E parti as garrafas com um grande estrondo. O Abílio conta que começou a pensar nos filhos e a temer que os matasse a todos! Ainda hoje diz “sabíamos lá que um gajo africano não ia gostar deste tipo de brincadeiras?”. E depois saíram disparados do posto médico. Nisto, o Carvalhal, que era o treinador, disse-me “Antchouet, acho melhor ires descansar”. E eu disse que não, que estava bem para treinar. E ele insistiu “é melhor, os outros hoje não querem treinar contigo”.

É uma das coisas boas em Portugal, brincamos muito. Joguei em muitos países, em Espanha, na Arábia Saudita, na Grécia, até na Índia e nunca vi um ambiente como em Portugal. A brincadeira faz parte da vida de uma equipa. Foi das coisas de que mais gostei em Portugal. Se vais para lá, vais ter de te integrar. Quer queiras ou não. E agradeço muito porque hoje Portugal é a minha segunda pátria, a minha segunda língua. Os meus filhos são portugueses, a minha mulher é portuguesa, e é onde vivo. Agora não, porque estou a jogar em França, mas é a minha casa. Vou viver sempre entre África e Portugal. É lá que tenho os meus amigos.

Lembro-me muito do Marco Silva, que agora é treinador, do Abílio, dos gajos mais brincalhões que vi na vida, o Sousa, que jogou comigo no Belenenses, e o Castro, com quem joguei no Moreirense. Se alguém me diz que o Sousa é treinador vou matar-me a rir! E todas as equipas deviam ter um Castro, o meu grande parceiro. Meta aí que o Xuxu deu força e moral, se não ele vai dizer-me “Xuxu, não dás moral ao capitão?”. Em todas as equipas portuguesas, os gajos que me tratavam por Xuxu são meus amigos próximos. Mas esta história acompanha-me. Sempre que mudava de equipa perguntavam-me se esta era verdade. Respondia “isso foi uma brincadeira, são aquelas coisas que os gajos fazem”. Ainda por cima foi numa grande temporada do Leixões, com o Abílio, o Besirovic, o Detinho, que foi eleito o jogador mais feio do campeonato português. E fiquei com milhares de histórias só da minha passagem por Portugal. É um país de gente boa.


Passou por Leixões, Belenenses, V. Guimarães, Estoril e Moreirense, deixando saudades pelos golos e simpatia que transmitiu. Aos 37 anos continua a marcar pelos franceses do FC Gobelins.

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13 comentários sobre “Antchouet

  1. nesse tempo dava gosto ver o LEIXOES S. C. jogar , bons jogadores e um dos melhores treinadores do mundo , obrigado ANTCHOUET por teres honrado a camisola do LEIXOES .

  2. Como dizia a musica… ,”ehhh perola negraaaa” . grande jogador que vestiu o manto do leixoes.

  3. Excelentes histórias Antchouet, chegas-te como um desconhecido mas pegas-te de estaca em bons clubes do campeonato e obrigada pelos golos, fintas e tudo mais que fizes-te pelo meu LEIXOES SC

  4. Isto sim é o lado do desporto que só vive quem está dentro. Esta sim é a verdadeira magia por detrás do jogo

  5. Excelente! Obrigado pela partilha, Antchouet! Lembro-me bem de ti a jogar pelo Belém, grande jogador! Abraço!

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