André Pereira

O Shéu fez-me um desenho. Foi em 1998, num convívio da casa do Benfica de Leiria, e o desenho que o Shéu me fez é o que mais me desenha a lembrança. O pai do Mário foi buscar-nos a um jantar do SCL Marrazes, o meu negro clube onde jogava eu e o Mário. Éramos putos, eu tinha 13 anos. Hesitei em ir, por vergonha de estar com os maiores, mas a amizade pelo Mário e o sorriso do pai do Mário lá me levaram com eles. Era noite e havia pirilampos lá fora, no jardim. Lá dentro, no restaurante, havia estrelas. José Augusto, António Simões, Manuel Bento, Mário Wilson, Shéu, Veloso. Ficámos sentados junto do José Augusto e do Shéu. José Augusto, o bicampeão europeu, Shéu, o pés de veludo. Havia mais luz do que no jardim e eu não sabia o que fazer, não sabia para onde olhar, não sabia nada. Sabia, apenas, que estava junto de duas lendas que nunca tinha visto jogar ao vivo, mas que eram parte da linfa que me corre no meu (muito) vermelho sangue.
O Shéu, sempre discreto e sempre tranquilo, olhou para mim, pegou numa caneta, num papel e começou a rabiscar. Desenhou qualquer coisa como figuras geométricas – que era o que ele desenhava em campo – e ofereceu-me. Acho que paralisei. Olhei para aquela folha e vi genialidade que ultrapassava a de Picasso. Os desenhos eram horríveis mas, caraças, eram desenhos que o Shéu fez para mim. Que se lixe a Guernica e As Meninas d’Avignon. Este menino dos Marrazes estava numa aguarela de museu e não queria de lá sair. Sou capaz de ter dito obrigado – a minha paralisia não me terá deixado dizer mais nada. Sei que José Augusto também pegou na folha e assinou. Seguiu-se Manuel Bento, que também lá estava ao lado, Veloso, António Simões e o senhor Mário Wilson, que me chamou de craque (não me interessa mais nada, o senhor Mário Wilson disse que eu era craque, o número 7 do SCL Marrazes era craque, ponto final, foi o que ele disse e, se ele disse, tinha razão) – e todos sabemos que não se deve contrariar os deuses.
A terminar a noite, depois daquela enxurrada divina, dirigi-me à caça de autógrafos na mesa presidencial. Foi aí que desci ao convívio com os humanos. Paulo Madeira, capitão de equipa, José Capristano, vice-presidente, e Vale e Azevedo (sim, tenho um autógrafo – legal – do Vale e Azevedo). “Dá cá a folha, que a assinatura de um presidente tem de ficar bonita.” Não há dúvida de que ficou bonita. Mas a anos-luz dos desenhos horríveis que o Shéu me fez.


Escritor e argumentista, colabora com o Público P3, escreve cartas para desconhecidos com o projecto O Que Te Quero Dizer e sobe a palcos de quando em vez para fazer rir e chorar pessoas.

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