André Nunes

Desde miúdo que fui um apaixonado desenfreado pelo futebol, tendo em conta que pelos meus 13/14 anos já estava a partir uma cadeira com a derrota do Benfica na Europa… Está bem que era uma cadeira alentejana (daquelas pequeninas de madeira), mas para o meu tamanho na altura já era uma cadeira considerável. E cheguei a verter uma lágrima por cada golo do mítico quatro a quatro do Benfica com o Leverkusen.
Desde tenra idade mostrei indícios de alguma propensão para excessos e vícios em jogos de futebol, primeiro nas máquinas. Para os mais novos, as “Máquinas” eram uns salões de jogos que existiam na rua, onde adolescentes e pirralhos que ainda nem borbulhas tinham gastavam todas as moedas de 50 escudos que os seus pais tinham lá em casa. E penso que o limite de idade para se entrar nestes salões era ter alguns dentes e conseguir andar. As “Máquinas” basicamente eram consolas do tamanho de pessoas, onde grande parte das pessoas da nossa geração passaram metade da sua vida. Depois vieram as consolas, às quais ficávamos colados que nem um ancião Oriental ao seu ópio… uma “trip” que podia durar dias, com olhos avermelhados, por piscar os olhos o mínimo de vezes possível, e tendinites nos dedos de tanto fustigar os botões do malogrado comando.
Além de tudo isto, como vivia sozinho com a minha mãe, tinha de jogar futebol comigo mesmo, mas isso nunca me impediu de imaginar tudo: imaginava equipas, estádios, craques (normalmente chamavam-se Rui ou Miguel, não me perguntem porquê), jogos, situações, imprensa, notícias de imprensa, mexericos, fãs dos jogadores… Eu fazia a novela toda na minha cabeça – o poder da imaginação. Houve uma altura em que jogava com duas meias enroladas que nem o Eusébio ou o Pelé, não por viver com poucas posses, ou num país subdesenvolvido, mas sim para não riscar o chão ou partir a mobília toda, visto que jogava na minha sala e a baliza era um arco que dava para o hall de entrada, e lá ficava eu a fazer carrinhos no chão de tijolo e a simular fintas na mobília.
Sempre gostei do desporto, pelo virtuosismo, pela luta, pela estética e o movimento corporal único em cada jogador que gostava de imitar, mas acabei por desligar um pouco deste desporto à medida que fui crescendo. Depois de fintar o meu próprio joelho várias vezes, falhei o meu sonho de ser futebolista, depois falhei o meu sonho de ser astronauta, de seguida veio o falhanço de ser estrela de rock e, finalmente, acabei como actor. Ser hooligan iria dar muito trabalho e… doía.


Actor de créditos firmados, podemos vê-lo na RTP1, na série “Madre Paula”, na SIC, em “A Família Mata”, e a partir de Setembro no Casino Estoril, na peça “Chapter Two”, de Neil Simon.

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