André Campos

Duas das minhas grandes paixões na vida são ver futebol e viajar. Sempre que possível gosto de juntar as duas. Em Dezembro de 2010 dei “um saltinho”, de miniférias, a Istambul. Uma cidade fantástica, dividida entre a Europa e a Ásia, onde se sente o peso da história a cada esquina. Numa das manhãs, assim que saí do hotel, comecei a ver muitas pessoas com a camisola do Galatasaray vestida e “cheirou-me” que ia haver “bola” nesse dia. Sempre ouvi dizer que os turcos são fanáticos e a ideia de ir ao futebol na Turquia pareceu-me boa! À hora de almoço, regressei ao hotel e perguntei ao recepcionista com quem é que o “Gala” jogava nessa noite e onde é que se conseguia arranjar bilhetes. O tipo foi super simpático! Lá me conseguiu dizer que o jogo era com o Gençlerbirligi (que eu só conhecia por ter jogado com o Sporting há uns anos, numa competição europeia que não correu nada bem…) e que ele próprio me compraria o bilhete. Só precisava de lhe deixar o dinheiro…

Esta é a altura certa para voltar a relembrar que estamos em Dezembro e que Istambul é uma cidade com características muito especiais. Nos primeiros dias a temperatura rondou os vinte graus mas, de um dia para o outro, passou a temperaturas negativas. Naquela manhã estava um frio de rachar e a previsão era de temperaturas negativas para a noite! Por esse motivo, disse ao recepcionista para me comprar o bilhete para a central, onde pudesse ficar abrigado da chuva e da neve. Ele disse-me logo que não havia problema e que me comprava os melhores lugares do estádio! Combinámos que ao final da tarde podia passar por lá a apanhar o bilhete e assim fiz. Nessa altura perguntei ao outro recepcionista qual o melhor caminho para o estádio. Ele lá me indicou a estação de metro mais próxima e disse-me que “depois vais ter de andar ainda um bom bocado, mas é fácil dar com o estádio”.

Quando entro no metro, as carruagens vão cheias de malta que vai à “bola” a cantarem e a fazerem um barulhão! Decidi que o melhor era seguir aquela malta até ao estádio para não me perder. Saímos do metro e eu acompanho-os, relativamente de perto, para ter a certeza que não me perdia. Andámos aquilo que me pareceu, mais ou menos, um quilómetro e comecei a ver o estádio. Quando já estamos a uns duzentos metros da entrada aparece um monte de polícias que começam a gritar e a empurrar toda a gente em direcção às portas. Na confusão, fiquei no meio de uma centena ou duas de turcos e fui andando com a “corrente”. Quando percebo que vamos começar a entrar no estádio, já a passar os torniquetes, começo a mostrar o meu bilhete (top-class) aos polícias e aos funcionários, para saber se estava a entrar na porta certa, mas eles não queriam saber de nada disso! Além de não falarem inglês, empurravam toda a gente e gritavam em tom ameaçador!

Não me restou outra alternativa se não entrar com a claque do Galatasaray e ficar, obviamente, num dos topos totalmente a descoberto! A partir daí só me restava aguentar a neve miudinha a bater-me na testa durante 90 minutos e, talvez, bater palmas de vez em quando para aquecer… O jogo não foi grande coisa, o “Gala” até perdeu (0-2) contra uma equipa que estava mesmo lá para o final da tabela. Após o primeiro golo, começo a ver a maior “enxurrada” de cadeiras a voar para o relvado que alguma vez vi na vida! O estádio estava “meia casa” e, naquela zona da claque, toda a gente (mesmo!) se entretinha a arrancar cadeiras vermelhas e a mandá-las para a zona da pista! Pensei “Estes turcos são mesmo doidos! Só porque estão a perder começam logo a arrancar cadeiras à molhada!” Entretanto o jogo encaminha-se para o final e eu estou no ponto mais próximo da hipotermia que alguma vez estive na vida, mas aguentei firme! Ao meu lado, começo a reparar que toda a gente tem cadeiras arrancadas na mão e algumas pessoas começam a bater com ferros no cimento. Nisto, o jogo acaba e surge um tipo com uma picareta na mão, daquelas enormes, e começa a malhar no estádio e a partir a bancada aos bocados! A seguir vem outro… E depois outro com uma marreta! Começam a partir a bancada à marretada e foi nessa altura que eu julguei que aquilo já era loucura a mais e pus-me a andar! Ou então estava a delirar com o frio… Sei lá! Só me lembro de pensar “se estes tipos fazem isto num jogo que não conta para nada, imagino quando perdem com um rival daqui de Istambul! Devem explodir o estádio!!!”

Faço o mesmo caminho a pé para o metro, acompanhado por centenas de pessoas, quase todas elas com cadeiras e bocados de cimento na mão. Alguns traziam um monte de cadeiras empilhadas umas nas outras… Surreal! Fui o caminho todo a pensar “se calhar é tradição levar cadeiras para casa como recordação, sei lá… Há tradições para tudo… Ou então servem para vender, porque os turcos fazem negócio com tudo!” Quando finalmente cheguei ao hotel e consegui aquecer um bocadinho, lá perguntei ao tipo da recepção: “Olha lá… O pessoal que foi ao futebol vinha para casa com cadeiras do estádio na mão. Diz-me… Isso é normal?!?!” Foi então que ele lá me explicou: “Não!!! O Galatasaray fez um estádio novo e este jogo foi o último no estádio antigo!” Está explicado…


Árbitro Assistente Internacional, ligado às competições profissionais desde 2007, foi auxiliar de Pedro Proença e é actualmente uma referência da arbitragem nacional.

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