Ana Sousa Dias

Barcelona, abril de 2006. Ofereceram-me um bilhete para o jogo Barcelona – Benfica e lá fui eu, sem prática de idas a estádios e sem nunca ter posto antes os pés no Camp Nou. Comprei bilhete de ida e volta num daqueles aviões fretados por benfiquistas e pensei: nada mal, posso passear em Barcelona toda a manhã. Engano, ficámos parados na pista durante três horas. Mas o ambiente era divertido, um avião cheio de pessoas que vão ver um jogo é ocasião que recomendo.
Chegada ao Camp Nou, lá me encaminhei para a zona dos adeptos. Fiquei sentada ao lado de um rapaz que viajava sempre a acompanhar o clube e aproveitava para ficar mais uns dias a conhecer as cidades. Férias com pretexto, achei boa ideia. Vi passar lá para a frente os três Gatos Fedorentos benfiquistas. Depois, um rapaz parou quando me viu e desdobrou-se em elogios, sou tão seu fã, etc. etc, até que declarou solenemente: não vou dizer mais nada porque já estou muito bêbedo. Foi um grande momento: entre 100 mil pessoas que enchiam o estádio, eu tinha um fã.
O jogo começou e Ronaldinho meteu um golo que foi anulado. No meio da agitação inerente ao golo e à anulação, vi o meu fã ser retirado em braços pela polícia, uma operação instantânea. Já o Benfica perdia por um golo – de novo Ronaldinho – quando chegou o intervalo. Fui queixar-me aos Gatos: Então o meu único fã foi levado pela polícia? Ricardo respondeu: parece que a polícia aqui não leva a bem que o pessoal dispa as calças em público, não dá para perceber porquê.
E foi assim que suportei mais um golo – Eto’o desta vez – sem o conforto de ter alguém que gostava de mim num estádio gigantesco e a abarrotar. Eram três da manhã quando saí do aeroporto, levada para casa pelo meu filho que nunca há de perdoar-me não lhe ter oferecido aquele bilhete para o jogo.


Jornalista desde 1975, construiu a sua carreira escrevendo para alguns dos mais prestigiados títulos da imprensa nacional. Tem uma crónica semanal no Diário de Notícias, onde é redatora principal.

 

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