Ana Bacalhau

A minha relação com o futebol é “emprestada”. Veio através da família, da forma como as pessoas mais próximas viviam o desporto e de como essa vivência se foi infiltrando em mim, ajudando a criar memórias fortes que são a base daquilo a que poderei chamar “a minha relação com o futebol”.

Quanto ao desporto em si, sei o básico e percebo o fascínio que desperta em muitos, mas nunca consegui replicá-lo em mim, por mais que tenha tentado. Por isso, vivo com ele esta relação meio emprestada, que herdei das memórias do meu pai a coçar nervosamente o bigode enquanto via os jogos em casa, ou dos domingos em que os homens da família iam à bola e as mulheres e crianças ficavam a aproveitar o sol e a espraiar-se em conversas e brincadeiras. Ou mesmo do som distante vindo do rádio a pilhas do meu avô que ia dando o relato e de como todos ficavam pendurados naquele grito prolongado de “Golo”, que demorava até chegar ao nome do clube que havia marcado.

Ouvir relatos de futebol pela rádio é algo que me deixa com nervoso miudinho. Sempre tanta agitação, tanta comoção. Devo ter herdado esse lado da minha avó paterna. O meu pai conta que sempre que jogava o Benfica, se fechava na cozinha a comer bolachas até acabar o jogo. Não conseguia ouvir o relato, muito menos ver o jogo na televisão.

A emoção e adrenalina que é posta num bom relato de jogo, televisivo ou radiofónico, faria prever que num jogo ao vivo o rebuliço fosse ainda maior. Pelo contrário, a primeira vez que fui ver um jogo de futebol a um estádio, aquilo que mais me surpreendeu foi o silêncio. Mesmo com claques e adeptos mais exaltados. No campo, aparte dos apitos do árbitro, o silêncio predominava. Apenas o som do chuto na bola. A metade do campo onde estava a bola agitava-se entre passes, posicionamentos e defesas. A outra metade, aquela que nunca é mostrada na televisão, era quase o oposto, vagarosa, aguardando pacientemente o passe que haveria de colocar no seu lado a tão cobiçada bola.

Ver futebol no estádio foi para mim como beber um copo de um dos melhores vinhos tintos: a confirmação de que nunca fará parte das minhas predilecções. Não consigo gostar de vinho, mas queria gostar. Não consigo gostar de futebol, mas queria gostar. Apesar de todas as coisas que acho feias no seu mundo e que me repelem, como a agressividade com que tantos o vivem, dentro e fora de campo, tornando uma rivalidade saudável entre clubes em ódio e violência gratuitos, a verdade é que tem muitas outras coisas que são bonitas de ver e, imagino, de sentir.

Por isso, apesar de não as sentir em primeira mão, peço-as emprestadas à minha família, àquelas memórias de pessoas tão queridas, algumas já tendo partido, que me põem um sorriso nos lábios e no coração, um sorriso cheio de emoção e carinho, sempre que vejo a bola a correr pela relva, de um lado para o outro do campo.


Esteve sempre ligada à música, mesmo enquanto tinha outros empregos. Ao fim de quinze anos conseguiu profissionalizar-se, feito alcançado com o grupo Deolinda, nascido em 2006.

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4 comentários sobre “Ana Bacalhau

  1. Eis um relato digno dos melhores profissionais da bola. Fez-me avivar a imagem que tenho do meu pai com o seu rádio a pilhas colado ao ouvido. E que dizer da analogia do copo do vinho e do jogo de futebol? Brilhante. Parabéns e obrigado pelo relato. Ah… e não enviou qualquer bola a trave. Como na música.

  2. Lamentavelmente ANITA, este teu seguidor pela revista do JN / gosto muito das crónicas e até as ponho no face, mas como dizia, lamentavelmente, nunca me respondeste se receberam as camisolas do ZECA AFONSO,,, e já lá vai tanto tempo o Coliseu do Porto pá. Mudou tanta coisa, até tu…. mas tenho gostado de acompanhar…ABRACINHO

  3. Pois, tem tudo isso o FUTEBOL e muito mais. De uma coisa estás errada,,, ouvir um relato pela rádio e pela televisão, é completamente diferente… Enquanto pelo rádio é rápido e tenta passar a emoção, pela tv é morno, lento, dizem de que clube veio o jogador, quanto mede e pesa, etc, etc, uma chachada, que bem fazia o Artur Jorge, dizendo que desligava o som e ouvia música clássica, enquanto via o jogo pela tv. Joguei a bola, sempre tive uma queda pelo Benfica, mas francamente já é raro ver um jogo até ao fim, tirando o clube da minha rua, sítio onde se encontram amigos velhos,( sem ser em funerais e ou hospitais), bem aqui vê-se tudo menos o jogo, diverti-mo-nos com a letra e quando é golo, não há a repetição e viva o VILA – VILANOVENSE…. Depois estou como um AMIGO que jogou comigo,, ó pá futebol e sexo não são para ver, são para praticar,,,,, tão mal anda o futebol, também o que o rodeia.. ABRACINHO do chico da EMILINHA

    • Menina Ana, ver ou ouvir futebol, só para quem gosta “dos chutos na bola.”Eu gosto do Belenenses, clube de bairro. Quando os comentadores no meu tempo gritavam golo, eram poucos os segundos no tempo.Com a chegada de Gentes do Brasil ao futebol, deixou de ser Golo, para ser Golooooooo !Meu tempo…das Salésias ao Restelo !
      Seu amigo
      C. Botelho

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