Alexandra Lencastre

Como actriz, interessam-me todos os espectáculos que impliquem partilhar ao vivo as emoções com o público e não deve haver espectáculo mais efervescente do que num campo de futebol. Com muita pena minha, o teatro não chega lá perto, por ter um conteúdo mais complexo e transmite mensagens mais profundas, logo é uma arte, não é um desporto. Chega a outro nível, é mais interior e contido. Acho que o nível de expansão que o ser humano consegue atingir, aquela espécie de histeria de massas, mas no bom sentido, é uma energia tão positiva e tão inebriante que faz do futebol o desporto-rei.
Quando era miúda gostava imenso de jogar basket, andebol e andar de patins, mas sempre fui uma naba a jogar futebol. Cansava-me muito, então a primeira vez que cheguei ao meio de um estádio fiquei a pensar que eram super-homens: “como é que eles conseguem? Eu nem um estádio consigo fazer, quanto mais 1h30 de jogo. Morria logo!” É preciso ter uma excelente preparação física.
Mas considero-me uma atleta porque, apesar da minha idade, tenho de manter-me sempre alerta para estar pronta a funcionar. O actor também se muscula mas de uma forma mais intelectual e emocional.
Uma vez fui com o pai das minhas filhas, o Piet-Hein Bakker, a Paris, num encontro da Endemol. E a casa-mãe, na Holanda, proporcionava nestes encontros, para os quais as famílias eram sempre convidadas, uns programas giríssimos. Em 1999, houve um jogo que foi memorável, um França-Croácia. Foi uma exibição de bom futebol, principalmente da parte do guarda-redes croata e do Zidane. Ficou 3-0, mas aquele guarda-redes defendeu brilhantemente a maioria dos remates, foi incrível! Então dei por mim com uma data de holandeses a gritar: “Zizou! Zizou!”
Nunca pensei emocionar-me tanto num campo de futebol e, depois desse jogo, fiquei com outra noção. Nunca tinha assistido a um jogo assim desta dimensão e fiquei completamente apaixonada. Lembro-me que saí do estádio cheia de adrenalina e demora horas até uma pessoa se acalmar e dormir.
Na altura as minhas filhas eram pequeninas, tive pena que elas não pudessem partilhar este momento, mas já lhes contei esta história e sempre que falo de futebol lembro-me deste episódio. Mas gosto de futsal, gosto de futebol na rua, na praia e, embora não seja nenhuma expert, acho que tenho alguma intuição para perceber quem joga bem e quem está lá a 100%. Isso para mim é muito importante. E este jogo, sendo pouco importante porque era um amigável, podia ser daqueles jogos um bocado mortiços, mas não, foi absolutamente glorioso.
Depois disto, a minha visão e o meu espírito em relação a todos os jogos portugueses, de todas as equipas, sem fazer distinções, mudou e passei a respeitar e a admirar este desporto. Não posso dizer que passei a ser completamente aficionada, porque não tenho tempo, mas admiro muito mais do que já admirava e passei a emocionar-me de tal forma que não posso estar sozinha em casa a ver um daqueles jogos mais importantes porque sou até sou capaz de atirar qualquer coisa à parede! Fico mesmo transtornada, o que é bom porque gosto das coisas que mexem comigo e das coisas que nos fazem manter acordados, com os olhos bem abertos para a vida.
Acho que os nossos jogadores, tanto em Portugal como no Mundo inteiro, têm feito história. Já sou mais antiga, tenho 50 anos, já cresci a gritar pelo Eusébio, por exemplo, e desde então tenho tido vários heróis. Não sou muito de ir pedir autógrafos, mas admiro-os aqui secretamente. Também passei a assistir a documentários, como o do Maradona, que considero um grande filme, uma lição de vida. E fico a ver sempre que apanho um a dar ou gravo para depois ver. No entanto não sou amiga deles, mas assim à distância mantenho uma secreta e profunda admiração.
A minha emoção aumenta de dia para dia, cada vez que os vejo actuar e que os vejo manter as suas vidas pessoais e familiares porque é muito difícil manter este equilíbrio. Quando se denomina o futebol de desporto-rei sinto que eles merecem todos ter rainhas à volta, mães, mulheres e filhas, porque devem sentir-se no Olimpo.


Uma das actrizes mais admiradas pelos portugueses, conta com uma extensa carreira no teatro, cinema e televisão. Brilha actualmente na novela A Única Mulher e com a peça Plaza Suite.

Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Deixe um comentário