Acácio Santos

Em 2012/13 fui trabalhar para a Malásia com o Divaldo Alves. Ele era o treinador principal da equipa A, fui como adjunto da equipa A e como principal dos Sub-21. Tudo era focado na Premier League da Malásia, depois havia o campeonato dos Sub-21.
Uma vez, durante um jogo, e eu não sabia disto, o árbitro pára o jogo. Fiquei surpreendido com aquela paragem e depois vi os muçulmanos a rezar. Estávamos muito perto de uma mesquita, ouvia-se a reza vinda dos altifalantes e os jogadores começaram o comportamento normal da reza. A equipa tinha indianos, chineses e muçulmanos, então os indianos e os chineses ficaram à espera, eu à espera, e os muçulmanos, naturalmente, a rezar.
A primeira vez que isto aconteceu fiquei surpreendidíssimo, sem saber o que fazer. A partir daí, como aquilo até foi frequente, ficava esses três ou quatro minutos no meu canto a pensar sobre o jogo, naquilo que a seguir ia dizer aos jogadores. Noutra vez a estratégia foi: vou falar com os indianos e com os chineses, já agora, que com eles posso falar, mas não foi muito bem aceite estarmos a conversar no momento em que eles estavam a rezar. Então passou a ser um momento de introspecção. Acabei por estar num momento mais de reflexão sobre aquilo que se estava a passar no jogo, sem pressão, sem nada, e acabou por ser benéfico.
Mas não imaginas a reacção que foi a primeira vez. Imagina que a bola ia em direcção à baliza, um lance prometedor e o árbitro apita… Depois o jogo recomeçava com bola ao solo e havia, naturalmente, o respeito por quem tinha a bola naquela altura. Esse foi um momento hilariante na Malásia. Tenho outros dois, nas minhas duas passagens pela Grécia.
O primeiro foi no Levadiakos, quando era adjunto do Velic na I Divisão grega. Nós fomos para salvar a equipa, chegámos num contexto muito complicado, e aquilo começou a correr bem. Tivemos logo uma vitória, depois uma derrota e seguia-se um jogo importante. E na altura, por brincadeira, fiz a barba rasa e deixei ficar o bigode. E fui para o treino de bigode, de tal maneira que a malta ficou toda surpreendida. Não havia esta moda da barba e do bigode. E lá vai o típico português dar o treino de bigodaça. E os estrangeiros, os espanhóis e os argentinos, a meterem-se comigo:
– Coach, o que é que se passa com esse bigode? Está tudo bem?
– Está tudo óptimo, não se preocupem. Vamos focar.
E às tantas, estávamos no estágio, sai a convocatória e chega o presidente, que não falava nada de Inglês. Eu não comunicava com o presidente, falávamos umas palavras em italiano. Ele chega-se ao pé de mim e diz-me assim:
– Akaki [que era assim que eles me tratavam na Grécia], moustaki? No moustaki. If we win you stay with moustaki. If we draw or if we lose, no moustaki.
Nesse fim-de-semana jogávamos em casa com o PAOK. Isto foi curiosíssimo porque até o canal grego desportivo me andava a filmar por eu estar a fazer o penteado do bigode com os dedos. E apareci várias vezes durante a emissão, o que não era normal porque eu era o adjunto, a pentear o bigode. A verdade é que empatámos com o PAOK, foi um óptimo resultado mas depois quando fomos jantar o presidente disse-me:
– We draw. No moustaki.
E então tive de fazer o moustaki. Foi também um episódio engraçado. Depois acabámos por sair e ir para o Episkopi, que é um clube do dono do Panathinaikos. Pediu-nos para irmos salvar a equipa, que estava na II Divisão, e acabou por correr bem. Ele também é dono da maior companhia de barcos de cruzeiros. E o Episkopi é da ilha de Creta, fomos para lá viver, então ninguém ia de avião para os jogos no continente, íamos sempre de barco. Eu sou alentejano, sou de Beja, não me metam dentro de um barco! Nove horas dentro de um barco, estou lixado! Um barco de cruzeiro, com quarto, tudo impecável, mas fui para lá em Janeiro, com mau tempo. Foi horrível! A primeira viagem que fiz de barco, com o mar agitadíssimo, e nós chateados porque podia ter sido evitada e íamos ter um jogo importante no dia a seguir. Íamos sempre um dia antes, depois descansávamos em Atenas. Lembro-me de ir falar com o pessoal do barco e às tantas tomo um comprimido para manter o equilíbrio e ver se conseguia descansar.
No dia a seguir, chegámos, tomámos o pequeno-almoço e fomos ter o treino de adaptação no centro de estágio do Panathinaikos. Fui fazer uma linha para marcar a nossa zona do primeiro exercício, de repente acabo a linha, volto, estou ao pé do Velic, ele olha para mim:
– Akaki, tu não estás bem. Olha lá a linha.
Então a linha era uma coisa horrível, aos ziguezagues. Nem com o comprimido consegui fazer uma linha direita! Acabei por ser gozado e a partir daí, cada vez que íamos de barco ele já me dizia que era melhor não ser eu a fazer a linha, que ia pôr outro rapaz grego a fazê-la por já estar habituado a andar de barco.
Mas depois acabou por ser porreiro, as coisas também correram bem, depois já fazia a viagem de barco à vontade. Entretanto começou o bom tempo e a Grécia tem a sua beleza natural. No início foi complicado porque era tudo junto, tinha de trabalhar no computador, preparar apresentações e unidades de treino, tudo com o barco a andar de um lado para o outro. É complicado quando não estás habituado. Agora não, depois de tantas viagens acabas por te adaptar.


Treinador UEFA Pro, estagiou com Pep Guardiola no FC Barcelona, trabalhou em Portugal, Grécia e Malásia, e podemos vê-lo como comentador da SportTv, função que iniciou em 2011.

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