A Gaja

Quando eu era pequena costumava ir para o terraço da minha vizinha espreitar os jogadores da Oliveirense a tomarem banho no balneário. A visão daqueles matulões, musculados e peludos (no final da década de 80 ainda não havia essa moda deprimente da depilação masculina), de toalha amarrada à cintura, era o OUTRO lado. O lado que eu não via, quando ia, com o meu pai ou com o meu avô, ver a bola, ali mesmo ao lado do campo pelado, sem barreiras de segurança, muros de betão. Só a terra bege (ou lama, quando chovia), a bola, as balizas e homens suados a correr.
Eu não sou daquelas gajas que diz que gosta de bola para impressionar os gajos e que vai para o estádio dar gritos histéricos só para parecer moderna. Nada contra gajas histéricas que vão para os estádios dar uma de treinadores de bancada… mas essa não é a minha cena.
Eu nasci (e cresci) literalmente dentro do campo da bola. A minha casa é o vértice de um triângulo: de um lado o hospital onde a minha mãe me pariu. Do outro o estádio Carlos Osório (que, era eu criança, tinha ainda um lindíssimo court de ténis, com aquela terra ocre e umas bancadas em cimento, protegidas do sol com uma ramada de lilases). Não havia grande escapatória.
A minha relação serena com o futebol (não lhe chamarei paixão porque esse termo guardo-o para o hóquei em patins… bailado, frémito, força, elegância, arte quase esquecida, emoção, velocidade, a vertigem do último segundo…) ganha força quando Dani, Dominguez e toda essa primeira geração de jogadores-celebridade surge em revistas como a saudosa Super Jovem (para gáudio da minha prima, que suspirava pelos olhos verdes do Dani no poster do quarto) e consolida-se com o Portugal-Irlanda de Novembro de 1995.
Tenho esse jogo (que nos levou à fase final do Euro 96) gravado numa cassete VHS. Mas nem preciso de a rever. Sei-os de cor, os golos de Rui Costa, Hélder e Cadete. Sei de cor a chuva que caía grossa no velhinho estádio da Luz (que, infelizmente, só conheci ao vivo já quando uma das paredes tinha sido derrubada, num aborrecido Portugal-Brasil que terminou empatado). Sei de cor a voz embargada dos comentadores, sei de cor as caras dos milhares que enchiam a Luz, a festa, os braços no ar, o calor numa noite invernosa de novembro.
E sei de cor também um dos melhores e mais espontâneos momentos de televisão a que já assisti. No final da partida, a equipa de reportagem da RTP acompanha a seleção até aos balneários e – coisa que hoje em dia seria impensável – faz o direto da festa, com direito a Baía, Fernando Couto, Secretário, Domingos, de toalha à cintura, de cuecas, a festejar, aos saltos, aos gritos, com banhos de champanhe para o mister António Oliveira e tudo.
Foi o que bastou. Estava rendida. O resto da história é sangue, suor, lágrimas, Cristiano Ronaldo e o ‘quase quase’ que nos mói e nos aflige. Mas que nunca – nunca! – nos faz perder a esperança.
Reparei agora no calendário. O Portugal-Irlanda foi precisamente há 20 anos. Uff, estou velha.


Raquel Costa é jornalista e autora da página de Facebook A Gaja. Começou na Lux, passou por 24 horas, Notícias TV e é editora da Palavras Ditas, centro de produção de conteúdos do DN e JN.

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3 comentários sobre “A Gaja

  1. E na eira debaixo de chuva, patins enfiados na agua, um sempre efervescente União-Sanjoanese! Grandes momentos da minha infancia tambem!

  2. Adoro o pensamento e os textos da gaja. Aconselho vivamente a toda a mulher do séc xxI a ler o livro em que me revi em inúmeras situações e em que ri a bandeiras despregadas. O livro anda a correr de mão em mão nas mulheres da minha família, sem chegar a minha avó que é uma senhora de 94 anos.Agora aterrou nas mãos da minha irmã que ao entrega-lo, passou os olhos por algumas passagens e ria sem parar. A minha mãe vai comprá-lo e eu pelo Natal vou oferecê-lo a minha filha. Espero pelo lançamento do próximo livro . Qualquer biblioteca feminina tem de o ter. É um must !.

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